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(...) houve um momento em que se sentiu tão inexoravelmente incapaz de se adaptar ao mundo, tão cansado de tentar, que decidiu cortar os pulsos. Escolheu a banheira - era um simbolista incurável - e atravessou-lhes uma faca virgem. A água na banheira, transparente como ele, praticamente invisível, em pouco tempo transformou-se num magnifico rubi de vermelho-literalmente-sangue. No entanto, percebeu que continuava vivo. Sequer sobreveio-lhe a tontura e a escuridão que antecedem a morte. Passou-se tempo suficiente para que todo o seu sangue o banhasse por fora e ele ali, desconcertantemente vivo. Era tão desamundado, tão excluído pelo mundo, que nem o simples ato de morrer lhe fora permitido. Continuaria vivo, como uma maldição e, agora, além de enjeitado, vazio por dentro, literalmente. Até os simbolismos lhe eram agora negados.

"É claro", pensou. Conformado com sua condição de pária da realidade, não achou estranho não ter morrido. E ficou ali, na banheira, em seu próprio sangue, em silêncio absoluto - seu coração já não mais batia.
Então levantou-se e, nu como estava - e sempre esteve -, caminhou até a praia. Parou diante da beira-mar, respirou fundo a maresia e, sem olhar para trás, caminhou em direção ao oceano. E continuou caminhando até que perdeu a areia de seus pés e começou a nadar, e adentrou o mar até que não se viu mais sua silhueta sobre as ondas.
Não morreu afogado, apesar de afogar-se. Desfez-se em sal.
Agora era do mundo, quisesse o mundo ou não.


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