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Era uma folha seca
Âmbar, cor de laranja
Ou de abóbora
Palheta outonal
Que o galho misturou
Pincel de madeira
Cerdas incertas
De pelo menos
A certeza do tom

Pendurada preguiçosa
Teimosa e frágil, delicada
A última da estação
Tão só e decidida a ficar só
Esperando talvez o inverno
O sopro frio e gelado
Do Norte, da Morte
Ou o tempo
Que o fio da vida corta
E que a tudo tomba
Porque tudo cai, e se vai
E se esvai

Até que o inverno chegou
Cobrindo de branco e de neve
De frio e silêncio
Tão gentil, tão sutil
O que o outono secara
E para ele deixara
Bem mais simples e leve

Menos a folhinha cor de laranja
Ou de abóbora, âmbar
Quem pode saber de cor?
A quem o inverno avistou
Ali pendurada, no galho
Que não a soltava
Sequer balançava

O inverno encantou-se
Com a coragem da folha
Que tão seca e pequena
Até quebradiça
Desafiava o outono
E ao mesmo tempo o inverno
Aquele sem poder ir-se embora
Este, chegar não iria
Enquanto a folhinha
Não aprendesse a voar
Por si mesmo, sozinha

E o encantamento virou paixão
E isto durou um mês
E a paixão transformou-se em amor
E isto durou mais um mês
E o amor impediu que o inverno chegasse
E a tudo de branco pintasse
E a todo falar silenciasse
E isto durou mais um mês
E agora eram três

E tanto amor inspirou-lhe um beijo
A ser dado com todo carinho
Na resiliente folhinha
Que ao recebê-lo
Deixou-se cair em seus braços
Mas de tão seca esfarelou-se na queda
Deixando o inverno mais triste
Deixando tudo mais triste

Foi o que a primavera me disse
E não chegou a sabê-lo o verão

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